Curiosidades
Queremos pedir licença aos nossos visitantes e
dedicar esta página a algumas pessoas que com o seu trabalho, seriedade e
dedicação, contribuíram e vêm contribuindo em abrilhantar o Circo Brasileiro,
não medindo esforços, em sua trajetória de vida para fazer da nossa história
circense uma das mais belas e ricas de todas.
Agradecemos a :
Jayme e Jair Temperani - Circo Irmãos Temperani
Rachel, Ivone, Charles Barry, Edy, Mila, Wilma e Ely Circo Charles Barry
Irmãos Silva Ermínia Silva - Doutora em História.
Pertence à Quarta geração da família circense Silva, colaboradora desta página,
a quem agradecemos especialmente.
José Wilson Leite - Circo Escola Picadeiro;
E a todas as Famílias Tradicionais Circenses.
Rosicler Temperani
Nossos objetivos aqui vão além das curiosidades
sobre o Circo. Queremos informar nossos visitantes sobre Parte da História do
Circo no Brasil - Sua Arte; Seus Saberes e Memórias. Nada melhor do que
começarmos pelo aparecimento do circo; suas características; sua importância
social - vida em grupo e tipos humanos que o formam:
"No final do século XVIII, gozavam de prestígio as apresentações eqüestres em
toda a Europa. Os volteios eqüestres, de origem militar, tiveram alterações
significativas em relação ao que se ensinava nas casernas, ou mesmo à sua
utilização nos campos agrícolas, quando os que os praticavam fora das relações
militares e de plantio passaram a montar cavalos. Paralelamente às apresentações
de montaria, caças e combates de animais, acompanhadas de cavalgadas e de
fanfarras e às corridas hípicas, em particular na Inglaterra, tiveram início
apresentações de acrobacias eqüestres de egressos das fileiras militares. Por
não estarem vivendo situações de combate, ao mesmo tempo em que desenvolviam
cursos de hipismo para nobres, alguns grupos de ex-cavaleiros militares saíram
dos" muros aristocráticos "das exibições particulares para a nobreza,
organizando espetáculos ao ar livre, em geral nas praças públicas, mediante
pagamento. Em Londres, destacavam-se as apresentações realizadas pelas
companhias de Hayam, Jacob Bates, Price e Philip Astley.
As praças e feiras há muito eram ocupadas por companhias ambulantes que se
apresentavam ao ar livre, em barracas cobertas de tecidos ou de madeiras; palcos
de pequenos teatros estáveis ou fixos - teatros de variedades e "music-hause"
[sic], como eram chamados na época Nicolet em Paris e o Sadler's Wells em
Londres. Eram acrobatas, dançadores de corda, equilibristas, malabaristas,
manipuladores de marionetes, atores, adestradores de animais, principalmente
ursos, macacos e cachorros. Ao sair do reduto exclusivo aristocrático, o cavalo
ficou mais disponível no mercado com preços acessíveis, possibilitando que os
grupos ambulantes os adquirissem e se transformassem, também, em hábeis
cavaleiros e disputassem os mesmos espaços com os ex-cavaleiros militares,
tornando-se comum a ambos o repertório de exercícios eqüestres e a rotina dos
saltimbancos. As agilidades corporais no chão, no ar e em cima do cavalo,
denominadas acrobacias eqüestres, eram realizadas ao som de fanfarras militares
e paradas espetaculosas.
Dos vários grupos que se formaram, destacou-se o de Astley, que, após haver-se
desligado de seu regimento, em 1766, iniciou com alguns companheiros exibições
públicas a céu aberto. Em 1768, alugou um campo próximo de Westminster Bridge e,
dois anos depois, mudou-se para outro terreno vago a poucos metros do anterior,
onde construiu tribunas de madeira em frente a uma pista circular, que implantou
para maior desenvoltura dos exercícios a cavalo, ainda sem cobertura.
Para grande parte da bibliografia que trata da história do circo, Astley é
considerado o inventor da pista circular e criador de um novo espetáculo. A
composição do espaço físico e arquitetônico, onde se davam as apresentações, era
em torno de uma pista de terra cercada por proteção em madeira, na qual se
elevava em um ponto pequenas tribunas sobrepostas, semelhantes a camarotes,
cobertas de madeira, como a maior parte das barracas de feira daquele período,
acopladas a pequenos barracões. O resto do cercado era formado por arquibancadas
ou galerias, bem próximas à pista. Este espaço, porém, foi construído de modo
semelhante aos lugares onde se adestravam cavalos e/ou ensinava equitação (Astley
usava a pista para aulas, nos períodos da manhã, apresentando-se ao público à
tarde); era semelhante, também, às construções de alguns teatros, nos quais o
tablado era cercado por algum tipo de arquibancada de madeira, parecida com
tribunas, sem pista para animal, mas com espaço para se assistir em pé.
Como espetáculo, entretanto, é que de fato Astley teria sido criador e inovador.
No início oferecia aos londrinos acrobacias eqüestres sobre dois ou três cavalos
e os maneava de sabre. Quando começou a se apresentar no espaço cercado por
tribunas de madeira, não realizava apenas jogos ou corridas a cavalo, como a
maioria dos grupos do período. A uma equipe de cavaleiros acrobatas, ao som de
um tambor que marcava o ritmo dos cavalos, associou dançarinos de corda
(funâmbulos), saltadores, acrobatas, malabaristas, Hércules e adestradores de
animais. Esta associação de artistas ambulantes das feiras e praças públicas aos
grupos eqüestres de origem militar é considerada a base do "circo moderno". Com
as dificuldades de se apresentar a céu aberto, por causa das variações do tempo,
em 1779, Astley construiu um anfiteatro permanente e coberto em madeira, o
Astley Royal Amphitheater of Arts, que também comportava uma pista cercada por
arquibancadas.
Após a estréia deste tipo de espetáculo e espaço criados por Astley, um
cavaleiro de nome Hughes, que tinha feito parte de sua primeira troupe, deixou
esta companhia para montar a sua própria, em 1780, com o nome de Royal Circus, e
pela primeira vez este tipo de espetáculo e espaço aparecia com o nome de
"circo". Hughes construiu um lugar que tinha um palco, como nos teatros e uma
pista colada àquele, na pista apresentavam-se os cavaleiros e saltadores, e no
palco os funâmbulos e pantomimas. Quanto à platéia, camarotes e galerias foram
colocados em andares superpostos, inclusive camarotes de proscênio, e não mais
em arquibancadas. Esta combinação permitia dar espetáculos maiores do que
simples pantomimas de pista e o público podia assistir inteiramente as
apresentações, tendo em vista a sua disposição ao redor e em lugares de cima a
baixo, ao lado da pista e do palco. Quando, em 1794, o anfiteatro de Astley
pegou fogo, ele o reconstruiu aos moldes do de Hughes, ou seja, com pista e
palco. De início, Philip Astley, fazia apenas apresentações eqüestres, alteradas
posteriormente com a introdução de números de saltimbancos em seus "entreatos",
com o objetivo de imprimir ritmo às apresentações e dar um entretenimento
diferente ao público. Os clowns fingiam-se de aldeões ou camponeses rústicos,
imitando hábeis cavaleiros, mas de forma grotesca. Atuavam também em pantomimas,
em cenas cômicas eqüestres. Posteriormente, estas pantomimas serão apresentadas
nos circos, sendo denominadas de pantomimas circenses. Esta redefinição da
apresentação dos artistas nômades ambulantes e saltimbancos nas ruas, praças e
feiras públicas junto com as apresentações eqüestres dos ex-militares, num
espaço formado por um picadeiro rodeado por arquibancadas é considerado a base
do circo moderno.
Rapidamente a idéia de um local de apresentações, em que se reuniam artistas
saltimbancos e cavaleiros, expandiu-se pela Europa, e migrou para as Américas.
No início as apresentações eram realizadas numa espécie de anfiteatro ou
hipódromo. Nos Estados Unidos houve uma criação de uma estrutura de lona que
podiam ser montadas e desmontadas facilmente, permitindo a locomoção, podendo
percorrer as grandes distancias do país. No princípio de 1820 quase todos os
circos norte-americanos adotavam essa forma, e a partir de 1830, surgiram na
Inglaterra.
A partir do Início do século XIX, na América do sul, registra-se a chegada de
famílias européias compostas por circenses ou saltimbancos.
No Brasil, tem-se como primeiro registro em jornal por volta de 1830. No início
os circos que se apresentam no Brasil, mantém a estrutura inicial com números
acrobáticos, eqüestres e palhaços. Estes últimos, junto com outros artistas, ou
em dupla, apresentavam pantomimas, cuja linguagem era musical e gestual.
No processo de desenvolvimento histórico do circo no Brasil, os artistas foram
mesclando as apresentações de pantomimas (gesto, dança e música) às montagens
teatrais que eram baseadas em texto e fala, o que não eliminava a música e a
dança. Por isso é importante assinalar que, palco e picadeiro sempre fizeram
parte da teatralidade circense, sendo que na primeira década do século XX já se
podia observar apresentações de gêneros teatrais diversos, como teatro de
revista, farsas, operetas, dramas e comédias.
Uma outra característica importante do circo, além das anteriores, é que como um
grupo nômade, sua principal forma de transmissão - de todos os conhecimentos e
saberes sobre como ser artista e ser circense - sempre foi pela tradição oral.
Diferente de outros grupos nômades, os circos sempre foram constituídos por
famílias de diferentes nacionalidades. No início da constituição do circo no
Brasil, a principal origem das famílias circenses que para cá vieram era
européia ocidental e oriental - japonesas, por exemplo. A trajetória artística
dos homens e mulheres circenses mostra que não se pode estudar a história do
teatro, da música, da indústria do disco, do cinema e das festas populares no
Brasil, sem considerar que o circo foi um dos importantes veículos de produção,
divulgação e difusão destes empreendimentos culturais. No seu modo de organizar
e produzir o espetáculo, os circenses trabalhavam os seus espaços como um campo
ousado de originalidade e experimentação. O palco/picadeiro foi e continua a ser
um lugar onde vários deles se tornaram agentes de comunicação dos diversos
gêneros, divulgando e mesclando os vários ritmos musicais e textos teatrais, das
capitais para o interior do Brasil e vice-versa. Os circenses sempre buscaram
sua afirmação, realizando espetáculos que traziam em si um formato de
massificação, próprio a cada época, ao saírem em busca de um público
heterogêneo, nos mais diferentes lugares. O espetáculo era assistido, dependendo
da localidade, por uma razoável quantidade de pessoas, que entravam em contato
com diferentes linguagens culturais. É possível se afirmar que os espetáculos
circenses eram a forma de expressão artística que maior público mobilizou
durante todo o século XIX até meados do XX, considerando a quantidade de circos
dos mais variados tamanhos, seu alcance e penetrabilidade.
Estas são informações que demonstram a importância sócio-cultural que o circo
desempenhou e desempenha na vida das pessoas. Ainda é um dos poucos
entretenimentos produzido por grupos familiares, que possui um espaço com uma
capacidade de atender um número grande de pessoas, diariamente, e de diversas
classes sociais e de todas as idades."
Texto extraído da tese de doutorado de Ermínia Silva: "As múltiplas linguagens
na teatralidade circense" - Doutora em História pela Unicamp - Campinas.